Entrevista com Carlos Latuff, um autêntico artista popular

Escrito por Resistência Camponesa
Publicado em 12/03/2010
Categoria: Edição nº 18
Como parte da Missão de investigação e solidariedade do Cebraspo, o desenhista Carlos Latuff fez uma rápida visita às áreas Rio Pardo em Buritis, José e Nélio em Jacinópolis, Raio do Sol e Canaã em Ariquemes. Ele mora no Rio de Janeiro e tem um trabalho reconhecido mundialmente de apoio à causa Palestina, contra a violência policial sobre o povo nos morros cariocas e de apoio a causas populares nos quatro cantos do mundo. Latuff visitou várias casas de camponeses e viu com os próprios olhos um pouco de sua rotina, andou na mata, provou carne de caças, mingau de babaçu e até coró (larva de coco).

Camponesa apresenta produção das áreasCamponesa apresenta produção das áreasNo dia 20 de outubro de 2009 cerca de 60 camponeses do Raio do Sol e Canaã fizeram uma calorosa recepção a Latuff. O novo barracão da assembléia foi todo decorado por mulheres e crianças: bandeiras da Palestina, MFP e LCP, murais com desenhos de Latuff e fotos locais, amostras de alguns  alimentos produzidos na área e ferramentas de trabalho cuidadosamente arrumados formavam um belo arranjo sobre a mesa. Latuff retribuiu com um discurso contundente e belo, que transbordou ódio pelo latifúndio e admiração pela luta camponesa combativa.

Durante toda a visita, vários camponeses puderam ver Latuff fazendo o que melhor sabe fazer: desenhar. Depois de sua visita a Rondônia Latuff já produziu diversos desenhos, textos, poesias e vídeos publicados na internet, TV, jornais e revistas, inclusive de outros países. Isto ajuda muito a divulgar a luta camponesa combativa tão criminalizada pelo monopólio de comunicação.

Na entrevista que segue abaixo vocês poderão conhecer um pouco mais deste autêntico artista popular.

Jornal Resistência Camponesa: Como você começou a desenhar e como aprimorou seu trabalho?

Latuff: Desde moleque. Eu era um garoto tímido, passava horas a fio vendo desenhos animados. Copiava os desenhos da TV para o papel. Meus pais me incentivavam, compravam lápis de cor, revistas para colorir e gibis. A gente não tinha grana pra comprar TV a cores naquela época, daí eu sabia como eram as cores dos personagens através das historinhas em quadrinhos. Fiz poucos cursos na vida, na verdade dois apenas. A maior parte do que aprendi foi por conta própria mesmo.

RC: O que fez despertar sua consciência política e seu interesse pelas lutas populares?

Latuff: Um documentário que assisti sobre o levante Zapatista em Chiapas, nos anos 90. A resistência dos indígenas mexicanos me tocou profundamente. [Latuff tinha então 22 anos]

RC: Conte para os camponeses do norte do país o que o monopólio da imprensa não fala sobre a ação da polícia nas vilas e favelas do Rio de Janeiro?

Latuff desenha para os camponesesLatuff desenha para os camponesesLatuff: Brutal. Assemelha-se as operações de busca e destruição levadas a cabo pelo exército dos EUA durante a Guerra do Vietnã. A polícia no Brasil e, particularmente no Rio de Janeiro, tem uma abordagem de infantaria, o importante não é prender o criminoso e sim eliminar fisicamente o inimigo. E não existe preocupação com civis. Se no processo pessoas inocentes morrem, isso é tido como "baixa de guerra". O fato da polícia civil carioca ter um helicóptero blindado cujo modelo é semelhante aqueles usados no Vietnã é mais uma prova disso.

RC: Em quais países você já esteve acompanhando de perto lutas populares? O que te chamou mais atenção?

Latuff: Sem dúvida minha viagem a Palestina no final de 1998 e minha visita aos campos de refugiados palestinos em maio passado. Mas esse ano de 2009 foi realmente impactante pra mim. Num espaço de alguns meses estive na Jordânia, no Líbano, em Paris e no interior de Rondônia.

RC:
A heroica resistência palestina contra a ocupação israelense e seus ataques genocidas está presente na maioria de seus trabalhos, como você poderia explicar em poucas palavras esta importante luta?

Latuff: Olha, costumo dizer que minha relação com os palestinos já transcendeu a questão política ou social. É amor mesmo que sinto por eles. Se Israel tem sido ponta-de-lança das políticas imperialistas de Washington no Oriente Médio, os palestinos tem sido seu maior obstáculo. Posso resumir a impressão que tenho dos palestinos a partir de um grafite que vi na cidade de Ramalah: "Não somos baratas que você possa pisar. Somos minas. Você pisa e nós explodimos". Um povo como aquele, que resiste a um dos exércitos mais poderosos do planeta, é algo que jamais pensei em ver na vida. Israel pode partir cada osso do corpo de um palestino, mas não os coloca de joelhos, seu espírito, esse é indomável e invencível.O palestino está sempre resistindo seja pela força das armas, das palavras, das poesias, das canções, da arte. Ô povo maravilhoso...

RC: Você acha que um artista deve colocar sua arte a serviço do povo? Fale-nos um pouco sobre isto.

Latuff: Não creio que o artista deva ser 100% engajado todo o tempo, mas certamente deve ter a consciência de que, de posse de uma habilidade, esta deva ser usada em prol do coletivo. Se a arte em si não transforma, que ela esteja a serviço dos agentes da transformação. Não sou um revolucionário, longe disso, mas ofereço meu traço aos que participam das pequenas e grandes revoluções.

RC: Conte pra nós as perseguições que você tem sofrido devido ao seu trabalho.

Latuff: Por três vezes fui obrigado a prestar depoimento em delegacia só por fazer desenhos alusivos a violência e corrupção policiais no Rio.

Eu já nem esquento mais a cabeça com isso. O último email que recebi foi de um líder evangélico canadense, Charles Edgbaston, me ameaçando pelas minhas críticas ao Estado de Israel. Disse inclusive que mandaria seus seguidores no Rio e em São Paulo ficar de olho em mim.

Na época em que um site associado ao Likud fez ameaças contra mim, cheguei a receber a informação de que bandidos comuns estariam sendo pagos aqui para me matar, simulando um assalto. Não esquento mesmo. Ninguém vive pra sempre. Mas a arte sobrevive, isso é o que realmente importa.

RC: Uma camponesa nos perguntou: “O que fez o Latuff vir do Rio de Janeiro até aqui? Estava em busca de aventuras ou de conhecer lugares novos?” Por favor, responda você mesmo.

Latuff: Nem uma coisa nem outra, o Cebraspo me convidou porque entendeu que pela minha ligação com os movimentos populares dentro e fora do Brasil eu devesse ter um contato pessoal com a luta dos camponeses pobres de Rondônia. E depois que a gente vê a realidade nua e crua temos condições de discutir o assunto com mais propriedade.

RC: O que achou da luta camponesa que conheceu aqui em Rondônia?

Latuff: Creio que em matéria de resistência popular, os camponeses de Rondônia são os mais avançados que já vi até hoje no Brasil.

O carinho com que fui recebido, acredite, jamais vou esquecer. Pra alguém que nasceu e foi criado numa grande cidade como o Rio de Janeiro, foi um grande impacto viver um pouco da rotina do camponês amazônico. Não que eu tenha uma vida de luxos. Moro com meus pais numa casa cuja área em metros quadrados é menor que qualquer uma das residências que vi em Rio Pardo. Mas comparado com a vida dos lavradores que conheci, sou um burguês vivendo em Paris.

Sabe, agora compreendo melhor o simbolismo da bandeira Palestina estendida pelos camponeses na escola durante minha visita. A princípio me pareceu uma homenagem aos meus anos me solidarizando com o povo palestino. Mas se a gente pensar bem, os palestinos e os camponeses pobres do interior de Rondônia guardam grandes semelhanças entre si. Eles lutam pela terra, enfrentam inimigos poderosos e não baixam a cabeça nunca. Aqueles que vencem a floresta amazônica, suas onças, suas malárias e as emboscadas de pistoleiros merecem, com todo mérito, serem chamados de “Os Palestinos da Amazônia”.

Minha cabeça ainda continua aí. Ando pela rua, vejo as árvores e lembro do verde da floresta amazônica. Não tem passado um só dia que eu não me lembre das pessoas daí, dos lugares que vi, das coisas que aprendi. Se eu não trouxe a malária aqui pro Rio, por certo fui contaminado sim pela força daqueles que têm os pés na terra e coração altivo. A selva e seu povo estão dentro de mim agora.

RC: Deixe uma mensagem final aos leitores do Jornal Resistência Camponesa.

Latuff: Queria deixar registrado meu respeito e admiração pelo povo pobre e valente, que tão bem me recebeu, e continuar a honrar sua confiança. Espero que com os materiais que estou preparando a partir de minha visita ao interior de Rondônia, possa dar minha humilde contribuição para uma maior visibilidade a essa população tão digna, os Palestinos da Amazônia.

Para conhecer mais o trabalho de Carlos Latuff acesse:
http://latuff2.deviantart.com/gallery/

   

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