Organizações realizam ato de repúdio ao assassinato do líder camponês Cleomar

Escrito por Mário Lúcio de Paula
Publicado em 14/11/2014
Categoria: Notícias

Na noite de ontem, 6 de novembro, dirigentes e ativistas de partidos e organizações sindicais e populares, operários, advogados, jornalistas, professores e estudantes compareceram ao ‘Ato em repúdio ao assassinato do dirigente camponês Cleomar Rodrigues’, realizado no auditório do Sindicato dos Empregados no Comércio de Belo Horizonte, Minas Gerais.

Na abertura do Ato, presidido pela Associação Brasileira dos Advogados do Povo (Abrapo), foi exibido um vídeo do funeral de Cleomar, em Pedras de Maria Da Cruz, no Norte de Minas, com as manifestações de revolta e solidariedade de organizações democráticas e populares.

A Sra. Dira, dirigente da Liga dos Camponeses Pobres (LCP) do Norte de Minas e Sul da Bahia e companheira de Cleomar, não pôde comparecer ao Ato por estar acompanhando o parto de uma filha. Emocionou a todos sua fala registrada no vídeo narrando as dificuldades enfrentadas com seu companheiro e a felicidade de poder ter compartilhado a vida e a luta com Cleomar. Ela cobrou punição para os responsáveis pelo assassinato de seu companheiro, mandantes e executores, bem como destacou que as “autoridades” e instituições que citou nominalmente, entre elas o Incra, “têm culpa do que aconteceu”.

Fizeram uso da palavra: Associação Brasileira dos Advogados do Povo (Abrapo), Liga Operária, Movimento Feminino Popular (MFP), Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR), Frente Revolucionária de Defesa dos Direitos do Povo (FRDDP), Sindicato dos Trabalhadores dos Correios de Minas Gerais (Sintect), Partido da Causa Operária (PCO), Partido Comunista Brasileiro (PCB), Sindicato dos Trabalhadores da Construção de Belo Horizonte e Região (Marreta) Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (Cebraspo), Comitê dos Familiares dos Presos Políticos (RJ), Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania (IHG) e Movimento Classista dos Trabalhadores em Educação (Moclate). Também foi registrada a presença de ativistas do Movimento Marxista 5 de Maio (MM5).

Os oradores desses movimentos expressaram sua solidariedade com a Liga dos Camponeses Pobres e com familiares e companheiros de Cleomar. Comprometeram-se em somar esforços na denúncia e nas ações de solidariedade, além de empenhar-se para que os responsáveis pelo assassinato do dirigente camponês sejam punidos.

O superintendente do Incra-MG, Danilo Daniel Prado Araújo, também esteve presente e, em sua fala, afirmou que a ação do latifúndio e seus bandos de pistoleiros é uma “afronta ao Estado”. Ele revelou que, na primeira semana de novembro, após o assassinato de Cleomar, uma equipe do Incra e agentes da Polícia Federal estiveram em Pedras de Maria da Cruz para realizar uma demarcação em uma fazenda e foram impedidos de entrar pelo latifundiário e seus “seguranças”. A equipe da Polícia Federal teve que “recuar” devido ao “efetivo insuficiente”. Em sua fala, o Dr. Danilo ainda que convidou os camponeses para participar de uma reunião que ocorrerá em Montes Claros no dia 20 de novembro, para a qual também foram convidados os latifundiários.

A fala do superintendente foi respondida e repelida pelos oradores que o sucederam. Ele foi respondido com uma contundente denúncia de toda a situação da luta pela terra no Norte de Minas desde a histórica batalha de Cachoeirinha (hoje conhecida como o município de Verdelândia), marcada por heroica resistência camponesa e massacres covardes perpetrados por agentes do velho Estado, seus bandos de pistoleiros e forças policiais. Foi denunciada a enrolação do Incra nos processos de desapropriação de terras, a covardia e omissão do Incra e “autoridades” (entre elas promotores, comando da PM, Ministério Público etc.) que estiveram presentes em Audiência Pública realizada em Pedras de Maria da Cruz em 9 de outubro último, em que participaram mais de 300 camponeses, ocasião em que Cleomar denunciou os crimes do latifúndio, a tentativa do oportunismo de dividir os camponeses em luta pela terra e apontou para o pistoleiro Marcos Gusmão, acusou-o diante das “autoridades” de fazer serviço de pistolagem para os latifundiários da região. Na ocasião, Marcos Gusmão, que hoje encontra-se preso acusado do assassinato de Cleomar, estava sentado ao lado do prefeito de Pedras de Maria da Cruz e do filho de um latifundiário e riu de Cleomar e dos mais de 40 camponeses que fizeram uso da palavra confirmando as denúncias de Cleomar.

Nada, absolutamente nada, foi feito pelas ditas “autoridades” para solucionar o problema da terra e para impedir o crime do latifúndio.

E sobre o convite para a reunião em Montes Claros, foi respondido que os camponeses veem com grande reserva reuniões desse tipo, que além de não solucionarem nada, os latifundiários, inimigos de morte dos camponeses, são convidados e tratados com toda reverência. Foi feita a denúncia que, justamente após reuniões como essas, com a presença de Incra; do Ouvidor Agrário Nacional (Gercino José da Silva); comando da PM; Ministério Público, e outras “autoridades”, e também de latifundiários, vários dirigentes e ativistas camponeses e indígenas foram presos e assassinados no Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Rondônia, e por último, Cleomar Rodrigues, no Norte de Minas.

O superintendente Danilo retirou-se do ato sem ouvir tudo o que disseram os demais oradores.

O ato foi concluído com todos os presentes assumindo o compromisso de se empenhar no apoio a uma manifestação planejada pela Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas e Bahia, que será realizada em Pedras de Maria da Cruz, para denunciar o assassinato de Cleomar, no próximo 24 de novembro.

   
     
   
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