Resistência camponesa de Corumbiara, farol da luta por um novo Brasil

Escrito por Resistência Camponesa
Publicado em 15/08/2015
Categoria: Notícias

Nos dias 8 e 9 de agosto a LCP – Liga dos Camponeses Pobres e o Codevise – Comitê de Defesa das Vítimas de Santa Elina realizaram celebração dos 20 anos da heroica resistência camponesa de Corumbiara. As atividades foram abertas com uma vigorosa manifestação pelas ruas da cidade. Os manifestantes empunharam faixas, bandeiras e gritaram palavras de ordem, relembrando este que foi um dos fatos mais importantes da história recente do Brasil e cobrando o sangue derramado de camponeses que lutavam por um punhado de terra para trabalharem, criarem os filhos e viverem com dignidade do próprio suor.

Participaram cerca de 150 camponeses, estudantes, professores, operários, artistas, outros trabalhadores e pequenos comerciantes de Corumbiara, Vilhena, Rolim de Moura, Jaru, Ariquemes, Buritis, Cujubim, Vale do Anari, Machadinho D’Oeste, Porto Velho, de outros estados e até de outros países.

Na área Renato Nathan, na antiga fazenda Santa Elina, retomada em 2010 por camponeses dirigidos pelo CODEVISE e LCP, ocorreu o ato político. Representantes de sindicatos, imprensa e movimentos populares, democráticos e revolucionários destacaram a importância da resistência de Corumbiara, a atualidade da luta daquelas famílias e a necessidade de apoiar e fazer crescer a luta camponesa em todo o país. Até hoje as famílias não foram indenizadas e os assassinos e torturadores de camponeses não foram punidos, especialmente o mandante, o latifundiário Antenor Duarte e os comandantes, o tenente coronel da PM José Ventura Pereira e o então governador Valdir Raupp. Nas últimas duas décadas aumentou a concentração de terra no Brasil, o latifúndio aumentou seu poder na gerência do velho Estado, paralisou a reforma agrária falida e aumentou o número de assassinatos de lideranças em luta pela terra.

O ato político encerrou com uma singela homenagem aos heróis do povo brasileiro. Foram entregues quadros e poesias a parentes do Sérgio Rodrigues e do Nelinho, representando os camponeses assassinados na batalha de Corumbiara, a familiares dos companheiros Zé Bentão e Renato Nathan, coordenadores da LCP. Também recebeu a homenagem, a irmã de Paulo Justino, assassinado em Rio Pardo em maio último, em nome de todos camponeses que lutam pelo sagrado direito à terra.

O ato político foi aberto com o canto “A Internacional”, hino dos trabalhadores de todo o mundo e encerrada com “Conquistar a terra”, canto dos camponeses que sentencia: “A luta vai ser tão difícil, por mais que demore vamos triunfar!”

Festejar 5 anos da retomada

Na época dos acontecimentos, agosto de 1995, Luiz Inácio Lula/PT visitou as famílias na fazenda Santa Elina e prometeu, caso eleito presidente, desapropriar a fazenda e distribuir os lotes aos camponeses, punir os culpados pelos assassinatos dos acampados e indenização para as famílias. Em 2007, quando estava quase no meio do seu 2º mandato presidencial, um grupo das famílias remanescentes da resistência de Corumbiara acampou, por mais de 20 dias, no gramado do palácio do Planalto para cobrar a promessa. E nada foi feito.

Em 2008, a LCP organizou estes remanescentes de Corumbiara e outras famílias da região e retomou a fazenda Santa Elina. Foram despejados e reocuparam em 2010, mais organizados e com mais apoio, o que garantiu o êxito, o início do acerto de contas com o latifúndio, 15 anos depois. Enfrentaram ataques de todo tipo do latifúndio, seus pistoleiros e agentes nos governos, polícias, justiça, imprensa e movimentos e sindicatos oportunistas e hoje, 700 famílias conseguiram concretizar o sonho dos combatentes de 1995.

Festejando 5 anos da retomada, foram realizadas diversas atividades para celebrar esta vitória da união e luta combativa dos camponeses. Bingo, torneio de futebol masculino e feminino e churrasco, enquanto isto um animado baile transcorreu todo dia.

Revolução Agrária, esperança dos trabalhadores brasileiros

Esta importante celebração só foi possível porque foi realizada por dezenas de famílias e lideranças camponesas e teve apoio ativo de estudantes, professores, artistas e outros trabalhadores. O barracão da Associação dos Produtores da área Renato Nathan, onde ocorreram o ato político e a festa, foi construído pelos associados especialmente para este evento.

Foi feito um grande trabalho de mobilização de camponeses e apoiadores e de propaganda desta importante luta, com visita de casa em casa, colagem de cartaz, distribuição de panfletos e jornal, bem como exibição de vídeos, palestras e debates nas escolas de Corumbiara e região. Um documentário está sendo feito sobre a luta de 1995 e sua continuação. Tudo isto é muito importante e deve seguir sendo feito para combater a ação sistemática do latifúndio e seus agentes de silenciar e criminalizar a luta camponesa.

Uma grande campanha de arrecadação conseguiu levantar quase todos os custos, principalmente entre camponeses e pequenos comerciantes, entidades classistas e pessoas democratas de várias cidades de Rondônia e outros estados. Os donos de mercados na cidade, principalmente de Corumbiara, reconhecem como as tomadas de terra do latifúndio por camponeses ajuda a abastecer e movimentar o comércio e a vida das cidades do interior.

Os heróis do povo nunca morrem!

A luta dos heróis de Corumbiara continua nas mobilizações e tomadas de terra pelo Brasil afora, na luta pela Revolução Agrária. Mas é preciso, acima de tudo retomar o que resta da fazenda Santa Elina, a Nossa Senhora Aparecida (em torno de 25% do total). Após o despejo da Fazenda Santa Elina, em 1995, a direção da CUT–RO e do PT aceitaram a proposta do INCRA de “assentar” as famílias em outras e diferentes terras, quando a situação era totalmente favorável à desapropriação da Santa Elina pelo governo FHC que estava sendo bombardeado por cobranças e condenações de diversos países. Com a aceitação pelos oportunistas de ficar fora da Santa Elina o latifundiário logo aumentou as derrubadas e a formação de pastos em quase toda ela e a dividiu em várias fazendas.

E a indenização das famílias dos assassinados, dos feridos e traumatizados só pode ser conseguida com luta dura. A luta camponesa em geral também se aprofunda, pois está claro que o INCRA não desapropriará as terras do latifúndio e a justiça não punirá os assassinos de camponeses e seus mandantes. O latifúndio fez o terror em 1995 para que ninguém mais ousasse tomar um palmo de terra sequer.

As vidas camponesas ceifadas, seu sangue derramado regou o solo da fazenda Santa Elina, que hoje floresce como áreas revolucionárias Zé Betão, Renato Nathan, Maranatã 1 e 2, Alzira Monteiro e Alberico Carvalho. É solo sagrado. Que o latifúndio trema de medo, pois a Revolução Agrária cresce, os camponeses aprofundam sua organização e consciência, e já se levantam para cobrar toda injustiça, exploração e opressão. E o povo brasileiro que aos milhões ganharam as ruas em 2013 começa a perceber que o seu sonho de um novo Brasil só pode tornar-se realidade a partir da Revolução Agrária, caminho apontado pelos combatentes de Corumbiara que segue sendo trilhado por mais e mais camponeses, país afora.

   
     
   
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