Mais crimes do latifúndio no Vale do Jamari: líderes assassinados e camponês desaparecido

Escrito por LCP de Rondônia e Amazônia Ocidental
Publicado em 24/11/2015
Categoria: Notícias

Na noite do dia 22 de novembro Terezinha Nunes Meciano e Anderson Mateus André dos Santos, foram assassinados em casa, na Área Élcio Machado, na linha C 30, no município de Monte Negro. Segundo vizinhos, 3 homens chegaram de moto, invadiram a casa e deram cerca de 16 disparos de arma de fogo, matérias divulgaram que a polícia encontrou cartuchos deflagrados calibres 12 e 38 e que Terezinha foi golpeada de machado na cabeça e Anderson levou golpes de foice pelo corpo. Uma filha e duas netas de Terezinha estavam em casa na hora do ataque mas conseguiram fugir pela mata.

Eles lideravam ocupações de terra na região e é possível que foram vítimas de bandos fortemente armados a mando da associação de latifundiários recém-criada no Vale do Jamari para frear as tomadas de terra que tem pipocado em todo o estado.

Com o título “Líder da LCP e seu amásio são mortos a tiros em Monte Negro”, a página de internet Rondônia Vip, aproveitou para divulgar várias mentiras sobre a luta camponesa e a LCP. Apresentaram as vítimas como bandidos desmatadores, grileiros, quadrilha armada e a LCP como criminosa, que fatura muito vendendo terra e que ameaça de morte fazendeiros. Como sempre, não apresentaram prova alguma. A imprensa marrom não diz uma palavra sobre os latifundiários que grilam terras públicas destinadas à reforma agrária. Rondônia Vip nunca disse nada também sobre o depoimento do latifundiário Caubi Moreira Quito confessando ter contratado 10 policiais militares para fazerem serviço de pistolagem. Tampouco divulgou em suas páginas o relatório da polícia reconhecendo que pistoleiros, agentes penitenciários e policiais fortemente armados são contratados para realizar segurança privada nas fazendas da região de Buritis, sob o comando de um oficial da PM e de um ex-comandante do 7º Batalhão da PM (Ariquemes).

Os latifundiários são os maiores bandidos no Vale do Jamari, a imprensa marrom, as polícias e a “justiça” a serviço deles não tem moral alguma para acusar qualquer camponês. As massas é que devem, em assembleias populares democráticas, eleger e expulsar suas lideranças da forma e quando julguem necessário.

Camponês Valdecy está desaparecido

Desde a manhã do dia 11 de novembro está desaparecido o camponês Valdecy Padilha, morador da Área 10 de maio, no município de Buritis. Segundo camponeses, seu lote faz divisa com a fazenda de um latifundiário dono de loja de materiais de construção e que está tentando grilar as terras dos camponeses. Após o desaparecimento de Valdecy, vizinhos ouviram muitos tiros na direção da fazenda, por isso temem que ele tenha sido assassinado. Em setembro, ele e sua família foram atacados no lote por pistoleiros fortemente armados, conforme denunciamos (http://www.resistenciacamponesa.com/noticias/766-urgente-lutar-para-impedir-mais-um-despejo-de-camponeses-na-regiao-de-buritis).

Segundo camponeses, depois de expulsar a família de suas terras, o fazendeiro mandou fazer uma picada cortando o lote de Valdecy ao meio. Pistoleiros deixaram uma cruz feita com cartuchos calibre 12 e espalharam panos vermelhos em toda a divisa.

Mais ataques de pistoleiros e policiais contra camponeses

No dia 4 de novembro, cerca de 25 camponeses, homens e mulheres, acampados na fazenda Santo Antônio, de cerca de 2000 alqueires, no município de Ariquemes, foram atacados por 8 pistoleiros fortemente armados e encapuzados. Os criminosos invadiram o acampamento, destruíram 2 carros e 3 motos dos camponeses, bateram com um pau grosso, facão e arma de fogo, inclusive nas mulheres, e depois mandaram-nos beijar as armas. Um camponês quebrou duas costelas, vários ficaram com escoriações pelo corpo.

Os pistoleiros atacaram camponeses vizinhos do acampamento, invadindo casas, abordando na estrada, roubando e ameaçando de morte quem não contasse onde as famílias acamparam depois de serem despejadas por eles. Roubaram R$ 200 de um camponês que vende picolé nas casas, quando ele passou em frente a fazenda. Outro camponês abandonou o sítio depois que sua casa foi invadida duas vezes, com medo das ameaças. E um terceiro, quando foi denunciar estes crimes, ouviu do delegado que a polícia estava na área.

Quem se diz o dono da fazenda é Caio Brito, que trabalha com arames Belgo e mora em Ji Paraná. O acampamento localiza-se perto do Assentamento Terra Prometida, onde os líderes Tonha e Serafim foram assassinados em 2003.

Camponeses do Acampamento 13 de agosto localizado na linha C-110, travessão B-40, município de Alto Paraíso, têm sido atacados por policiais e pistoleiros. Segundo os camponeses, quando tomaram a fazenda Paraíso, ela estava abandonada, com muita capoeira, sem sede, nem curral, as poucas cabeças de gado estavam alongadas no mato. Francis Gutemberg da Silva que se diz o dono já explorou toda a madeira de lei, derrubou as matas ciliares do rio Jamari e juntou no processo judicial apenas um documento do Idaron e um requerimento do Terra Legal.

Acampados denunciaram que 20 homens fortemente armados de fuzil, pistola, espingarda 12, com máscaras, roupa camuflada e colete, atiraram várias vezes contra o acampamento e trancaram porteiras em estradas fora da fazenda. Eles seriam na maioria policiais militares de Ariquemes, amigos da namorada do latifundiário Francis Gutemberg, que é agente penitenciária na mesma cidade. Um oficial de justiça esteve na área depois de denúncias de vizinhos e teria presenciado os policiais armados e fora de sua função.

No dia 12 de novembro, quase 30 camponeses, inclusive mulheres e crianças, do Acampamento Luiz Carlos, no município de Monte Negro, foram despejados pela PM e GOE – Grupamento de Operações Especiais. O ex-prefeito Jair Mioto, que se diz dono da área, esteve presente e ameaçou matar quem ficasse nas terras. Comenta-se na região que ele é responsável por vários homicídios, inclusive o de Luiz Carlos, desaparecido em dezembro de 2014.

A PM marcou para o dia 30 de novembro o despejo de cerca de 60 famílias do Acampamento Rancho Alegre 2, no município de Pimenta Bueno, em favor do policial reformado Genival Azevedo Cavalcante. O mais absurdo é que o título desta área já foi cancelado para fins de reforma agrária, segundo o Incra (clique aqui para ver o documento).

A Área de posseiros Terra Boa, no antigo Burareiro 20, de 420 alqueires, localizado na linha C-100, no município de Rio Crespo, está novamente ameaçada de despejo. Desde 2007, 36 famílias vivem e trabalham em seus lotes. Elas tiveram acesso a uma planilha do Terra Legal que consta que o título destas terras está cancelado, ou seja, ele tem que ser destinado para reforma agrária.

Funcionários do Incra que sempre garantiram aos trabalhadores que eles tinham grande chances de ganhar a terra, agora estão negando tudo. Há cerca de 40 dias um oficial de justiça esteve na área, escoltado por policiais militares. Três dias depois, uma comissão de moradores reuniu-se em Porto Velho com o Ouvidor Agrário Estadual Erasmo, o superintendente Luiz Flávio e o advogado Dr. Maguis, representando o pretenso proprietário, não identificado. O advogado disse que o Incra nunca apresentou uma proposta de compra da terra e por isso seu cliente não se interessa mais em negociá-la com o órgão. Este advogado é o mesmo que defende o latifundiário Caubi Moreira Quito, que se diz o dono das terras da Área de Posseiros 10 de maio, acusado de vários crimes contra camponeses.

Jaru, 23 de novembro de 2015

LCP – Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia e Amazônia Ocidental

   
     
   
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