Massacre de camponeses no Paraná é crime premeditado e terrorismo de Estado

Escrito por Comissão Nacional das Ligas de Camponeses Pobres
Publicado em 12/04/2016
Categoria: Notícias

O roteiro do assassinato dos camponeses no Acampamento do MST em Quedas do Iguaçu têm semelhanças gritantes com o massacre continuado de camponeses no Vale do Jamari, em Rondônia.

Em Rondônia, o capitão do mato dos latifundiários Coronel Enedy foi empossado por imposição dos latifundiários e dos serviços de inteligência federais no Comando da PM. No Paraná, o Deputado Valdir Rossoni é empossado na Casa Civil do governador Beto Richa sob protestos da bancada de deputados aliados ao governo.

Em Rondônia, o Coronel Enedy anunciando que combateria a criminalidade e pacificaria a região, atacou o movimento camponês acusando-o de “terrorista”, visitou delegacias e prefeituras das regiões, e deslocou o grosso de seu contingente para aterrorizar os camponeses, realizando sem nenhuma ordem judicial buscas, revistas e cumprindo reintegrações de posse ainda em fase de recursos judiciais, isto ademais da ação combinada com pistoleiros para fazerem destruição de todo tipo e assinando o nome da LCP.

No Paraná, o Secretário da Casa Civil visitou Cascavel, deslocou grandes contingentes das tropas da PM para impedir a circulação de milhares de pessoas em Quedas do Iguaçu, Rio Bonito e Santa Terezinha do Oeste, onde estão três grandes acampamentos do MST, e deu declarações de que iria investir na segurança da região.

Em Rondônia, os companheiros Enilson (da Coordenação Regional da LCP) e Valdiro foram assassinados à luz do dia em Jaru; dois jovens foram assassinados na Fazenda Tucumã, um deles teve seu corpo queimado e outro está até hoje desaparecido. E a própria polícia civil prendeu dois PMs que junto com o latifundiário da Fazenda Tucumã cometeram este crime. Sem contar o verdadeiro arsenal de guerra que estava com estes e com o Sargento PM Moisés Pereira de Souza, condenado por muitos crimes e foragido do presídio, que teve sua fuga facilitada por ser o elo de ligação do Coronel Enedy com a pistolagem em Rondônia.

No Paraná, camponeses que estavam numa caminhonete dentro do acampamento Dom Tomás Balduíno, em Quedas do Iguaçu, foram fuzilados por policiais militares e por seguranças da Araupel, empresa que utiliza milhares de hectares de terras públicas griladas, como reconheceu a própria justiça do Paraná, e que por este motivo não existe qualquer ordem judicial de reintegração de posse. E a versão canalha da Polícia é de que os policiais militares teriam sido chamados por seguranças da Araupel para combater um incêndio e teriam sido recebidos à bala pelos camponeses, pelo que teriam reagido.

Mentirosos! Assassinos! E ainda impediram o acesso dos camponeses ao local do ataque para esconder seus crimes e ajeitar sua “versão” dos fatos.

Desde quando se combate incêndio na mata com equipes da ROTAM fortemente armadas? Alguém já viu uma arma apagar fogo? Os camponeses que teriam atacado os policiais militares e seguranças da Araupel estariam armados, segundo a versão sórdida da PM, com uma pistola e uma arma longa calibre 12. Como é que é? Camponeses com uma pistola e uma arma longa teriam armado uma emboscada para policiais fortemente armados? Quem acredita? E mais, onde estão os policiais, pelo menos um, feridos nesta suposta emboscada? Porque dois camponeses estão mortos e outros 6 feridos a tiros!

Acusamos por este massacre o governador Beto Richa do PSDB e a PM do Paraná.

Acusamos por este massacre a Presidente Dilma/PT/PCdoB/PMDB, que em 2015 e 2016 não assentou nenhuma família na terra neste programa falido de “reforma agrária do governo” que é uma mentira, não recuperou nenhuma terra grilada, e não puniu nenhum latifundiário ladrão e assassino, pelo contrário, ficou justificando os inúmeros despejos violentos de acampamentos em seu “governo”.

E acusamos também o oportunismo safado de Gleisi Hoffmann e Roberto Requião, que agora vêm posar de “bons moços” e acusar o atual governo do Estado como único responsável por este massacre bárbaro. Esta Senadora, candidata ao governo na última eleição, deu declarações junto com os grileiros da Araupel atacando os camponeses que lutavam para produzir nesta terra pública. Esta polícia de Beto Richa é a mesma que no tempo do Governador Requião assassinou tantos camponeses, como Teixeirinha, em Rio Bonito, e acobertou o assassinato do dirigente do MST Keno em Cascavel.

E para que o generoso sangue derramado destes camponeses não tenha sido em vão, há que se encarar de frente o verdadeiro significado da crise que o Brasil atravessa, muito mais do que a reles disputa pelo poder entre PT, PSDB, PCdoB, PMDB, et caterva, que contam com o monopólio da imprensa para fabricar esta falsa polarização entre golpismo e legalidade na opinião pública, principalmente nas classes médias. A crise que atravessamos é a mesma de sempre, crise crônica da base econômica de nosso país semicolonial/semifeudal e como reflexo da crise geral do imperialismo que atravessa o mundo inteiro. É a crise das economias baseadas em exportação de bens primários (soja, cana, petróleo, minério), pelo que o problema agrário e camponês, ao contrário de se resolver, se agrava ainda mais no sangrento caminho de sempre da nossa história. Os camponeses, indígenas e remanescentes de quilombolas precisam das terras para sobreviver. O imperialismo, a grande burguesia e o latifúndio, avançam açambarcando as terras para obter lucro máximo para evitar o soçobro de seu sistema podre, cruel, explorador e em franca decomposição.

Para acabar com tanta miséria, exploração e corrupção, tanta dengue, H1N1 e Zika, tanta matança de pobres nas favelas, para acabar com toda essa desgraça, toda essa barbárie no dia-a-dia, só com a destruição do latifúndio, a entrega das terras aos camponeses pobres sem terra ou com pouca terra, o que certamente vai levar a um aumento geral dos ganhos dos trabalhadores nas cidades. Destas gerências de turno da grande burguesia, do latifúndio e do imperialismo, que se legitimam através de eleições farsantes e corrompidas, só podemos esperar massacres e injustiças, embalados pela mais intensa campanha de criminalização e demonização do movimento camponês combativo.

Que todos que lutam pela terra, que todos os verdadeiros democratas, se levantem contra este massacre dos camponeses do Acampamento Dom Tomás Balduíno, do MST do Paraná. Que se levantem protestos para denunciar o terrorismo praticado pelo Estado brasileiro contra a luta pela terra. O sangue dos companheiros Vilmar Bordim e Leomar Bhorbak será vingado!

Comissão Nacional das Ligas de Camponeses Pobres

Goiânia, 08 de abril de 2016

   
     
   
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