Estado brasileiro é o principal responsável pelo massacre dos Guarani Kaiowá

Escrito por Comissão Nacional das Ligas de Camponeses Pobres
Publicado em 20/06/2016
Categoria: Notícias
Na manhã da terça-feira dia 14 de junho de 2016, latifundiários e pistoleiros cercaram e metralharam indígenas Guarani Kaiowá que lutavam por suas legítimas terras. Foi assassinado com dois tiros o Guarani Kaiowá Clodiodi Aquileu Rodrigues de Souza, de 23 anos, que trabalhava como agente de saúde indígena, e feridos gravemente pelo menos outros 6 indígenas, inclusive uma criança de 12 anos que foi atingida com um tiro no abdômen.

Este é o primeiro massacre da gerência Temer contra o povo que luta pela terra.

Como relatou ao CIMI uma liderança indígena que estava no local, os latifundiários, antes do ataque, estiveram na área acompanhados pela Polícia Federal, Força Nacional de Segurança, Polícia Militar e Polícia Civil. (ver reportagem completa da Assessoria de Comunicação do CIMI em http://cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&conteudo_id=8774&action=read).

Reproduzimos trechos do relato:

Após a saída da polícia, um grupo de carros se aglomerou num ponto a cerca de três quilômetros do acampamento indígena, e os observou por cerca de quatro horas. Na terça-feira, por volta das sete da manhã, cerca de 200 carros se concentraram no mesmo local do dia anterior.”

“Às sete da amanhã, começamos a avistar carro chegando no mesmo local de ontem”, relembra. “Vinha mais de duzentos carros. Fizeram uma divisão, dois grupos: um veio de um lado, pela divisa da aldeia, fizeram um cerco na gente. Do outro lado, veio pá cavadeira [tipo de trator] e arrebentou a cerca, e começaram a entrar pelo campo. Vieram atirando, atirando, tiroteio feio mesmo, arma pesada”.

“A liderança segue no relato: “A gente foi empurrado de volta pra aldeia. Eles continuaram atrás e entraram na reserva, atacando. No meio desse ataque o filho da nossa liderança caiu morto, as pessoas foram feridas”, conta S.T.”

“Tudo indica que a operação massacre desencadeada contra a comunidade está longe de um fim. “Estamos cercados aqui. Tá tudo rodeado, os fazendeiros estão em volta. Não podemos nem entrar nem sair”, diz S.T. Ainda, os indígenas afirmam saber quem são produtores rurais responsáveis pelos disparos.”

A motivação do bárbaro e covarde ataque, a reportagem do CIMI esclarece a seguir:

“Em maio, os indígenas estiveram em Brasília, pressionando pela publicação do relatório da terra indígena Dourados-Amambai Peguá. Sob pressão, a Funai assinou o relatório. Dessa forma, a demarcação da terra indígena teria prosseguimento e o massacre, para as lideranças indígenas, é uma forma criminosa e covarde de intimidar as autoridades públicas e expulsar os Guarani e Kaiowá de uma terra que lhes pertence.”

Este relatório foi assinado pela FUNAI no dia 12 de maio de 2016, no dia seguinte à votação ocorrida no Senado para dar prosseguimento ao processo de afastamento da gerência Dilma/PT/PCdoB/PMDB, ocorrida no domingo 11 de maio de 2016.

Canalhas, demagogos e mentirosos! Este relatório deve ter circulado nos gabinetes palacianos por anos a fio durante a gerência Lula/Dilma/PT/PCdoB/PMDB, e só foi assinado quando concretamente esta assinatura muito pouco iria adiantar.

Nos últimos anos, como mil vezes a Liga dos Camponeses Pobres denunciou, inclusive com o recente documento “CARTA ABERTA Contra a perseguição, ameaças e assassinatos de camponeses e suas lideranças”, publicada em 29 de fevereiro de 2016 no site Resistência Camponesa (http://www.resistenciacamponesa.com), o Estado brasileiro desencadeou verdadeira operação de guerra para aplastar a luta pela terra. E isto vem sendo realizado combinando ataques pelo monopólio da imprensa criminalizando, desmoralizando e demonizando camponeses, indígenas e remanescentes de quilombolas; com o judiciário distribuindo reintegrações de posse a rodo para qualquer latifundiário grileiro e ladrão de terras que se arrogar proprietário; com a procrastinação eterna do poder executivo em regularizar os territórios indígenas e quilombolas; e com a criação de batalhões especiais da Força Nacional de Segurança, da Polícia Federal e das Polícias Militares para reprimir as massas que lutam pela terra. Além do mais é o Estado, principalmente através do aparato militar, mas não só, que fornece armamento, protege e dá fuga para os bandos de pistoleiros a soldo do latifúndio, encarregados de assassinar lideranças e aterrorizar as massas que lutam pela terra.

É a barbárie contundentemente denunciada e explicada pelo Professor Ariovaldo Umbelino no artigo “Camponeses, indígenas e quilombolas em luta no campo: a barbárie aumenta”, publicada no relatório ‘Conflitos no Campo –Brasil 2015, organizado pela CPT’, e reproduzida em partes na edição n.º 169 de A Nova Democracia (http://www.anovademocracia.com.br/no-169/6412-camponeses-indigenas-e-quilombolas-em-luta-no-campo-a-barbarie-aumenta ).

O ataque aos indígenas Guaranis no Mato Grosso do Sul têm a assinatura da gerência Temer. Será possível que o Gabinete de Segurança Institucional deste “governo”, chefiado pelo General Etchegoyen (parente de torturadores do regime militar-fascista e que por diversas vezes defendeu publicamente a tortura), que em última instância é o responsável pela Força Nacional de Segurança e pela Polícia Federal (que estiveram horas antes do ataque na Reserva Indígena junto com os latifundiários), não sabia, nestes tempos em que tudo se grava e tudo se ouve, sobre a ação criminosa dos latifundiários que ocorreria horas depois? Será possível que as dezenas de caminhonetes, carros e tratores utilizados para atacar os indígenas se deslocaram de forma invisível, sem que seus objetivos fossem identificados? E após o ataque, ninguém foi preso. Não é possível identificar os criminosos e assassinos?

E então General Heleno, falastrão, verdugo do povo haitiano e do povo pobre das favelas do Rio de Janeiro, quem é que se arma, se organiza como milícia, realiza invasões ilegais truculentas (os indígenas estavam em seu território reconhecido pelo Estado). Será o “MST, o MTST, as Ligas de Camponeses Pobres e congêneres”? http://m.folha.uol.com.br/poder/2016/05/1776179-chefe-do-gsi-nomeado-por-temer-e-de-ala-que-ve-mst-com-preocupacao.shtml

E a cobertura do monopólio da imprensa? Vejamos como noticiou este crime premeditado o G1, da Globo, em 14/06/2016 às 15h29, Índio é morto e 6 ficam feridos em conflito no sul de MS, afirma Funai. Desde quando um ataque deste é um conflito, que pressupõe dois lados em confronto. E não bastasse a tergiversação, que dimensão foi dada a este gravíssimo atentado ao povo indígena, dizimado em grande parte pelo genocida Estado brasileiro? É certo que é infinitamente menor do que a cobertura em tempo real da ação tresloucada de um americano em uma boate por motivos de intolerância.

Este massacre foi mais um crime premeditado. É o cartão de apresentação de Temer aos indígenas, camponeses e quilombolas em luta pela terra, para deixar claro o papel imutável do velho Estado brasileiro. E mais, este banho de sangue dos Guaranis Kaiowás do Mato Grosso do Sul é um ato terrorista dos latifundiários grileiros e ladrões de terras, e também do velho e genocida Estado brasileiro de grandes burgueses e latifundiários, serviçais do imperialismo contra todo o povo que se levanta por seus direitos e contra toda essa politicalha corrupta e entreguista que afundou o Brasil na crise.

Conclamamos todos a repudiar, denunciar e levar à sociedade brasileira toda a dimensão deste massacre vil, covarde e premeditado.

Conquistar a terra! Morte ao latifúndio!

Comissão Nacional das Ligas de Camponeses Pobres

16 de junho de 2016


 O vídeo com imagens do ataque do ataque contra os Guarani Kaiowá, foi divulgado pelo Ministério Público Federal do Mato Grosso do Sul: https://youtu.be/t9TeAOScFSE

   
     
   
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