Área Revolucionária Cleomar Rodrigues: Camponeses celebram 1 ano da retomada das terras com a festa do Corte Popular!

Escrito por LCP do Norte de Minas e Sul da Bahia
Publicado em 03/02/2017
Categoria: Notícias

Um ano após a retomada das terras da Fazenda Pedras de São João em Pedras de Maria da Cruz, os camponeses, organizados pelo CDRA – Comitê de Defesa da Revolução Agrária, concluíram o Corte Popular, com apoio da Liga dos Camponeses Pobres. Nesta mesma área, em 22 de outubro de 2014, foi assassinado covardemente numa tocaia, por pistoleiros e policiais à mando do latifúndio, o dirigente da LCP, Cleomar Rodrigues de Almeida.

Durante os dias 21 e 22 de janeiro, os camponeses realizaram uma grande celebração, com vibrante Ato Político no qual foram entregues a cada uma das 62 famílias, o Certificado de Posse, pelo CDRA.

 

Um marco histórico na luta dos camponeses

Na abertura das atividades, causando grande comoção em todos os presentes, foi cravado um tronco de aroeira, como marco ao lado de uma placa com inscrições em honra ao companheiro Cleomar, na entrada da cancela, onde o companheiro fora assassinado. Um segundo marco foi fixado em frente à sede da Associação das famílias, que também é sede da Escola Popular, na Vila “Unidos com Deus Venceremos”, onde o companheiro foi um dos fundadores e vivia com sua família.

Os familiares do companheiro Cleomar estiveram presentes. Durante a colocação do marco de honra, seu pai retirou solenemente um singelo pano vermelho que cobria a placa, seguido de aplausos de mais de 130 pessoas, entre as quais muitas verteram suas lágrimas pela lembrança do companheiro Cleomar e de ódio ao crime cometido pelo latifúndio. Após ser cantado com especial vigor, o “Conquistar a terra”, seguiram alguns pronunciamentos, com juramentos de vingar o sangue derramado do companheiro através do prosseguimento da luta por conquistar a terra e destruir todo latifúndio. Também pronunciou com emoção, a viúva do companheiro, afirmando que nunca conhecera uma pessoa com tamanho valor.

As organizações que estiveram presentes: Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas e Sul da Bahia, Associação dos Camponeses Pobres Unidos com Deus Venceremos, MFP - Movimento Feminino Popular, Liga Operária e Marreta - Sindicato dos Trabalhadores da Indústria e da Construção Civil de Belo Horizonte, Escola Popular, CSLP - Comitê de Solidariedade à Luta dos Povos, Comitê de Apoio à luta pela terra, Unidade Vermelha - Liga da Juventude Revolucionária, FETAEMG - Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Estado de Minas Gerais, Sindicato dos Nutricionistas do Rio de Janeiro, CEBRASPO - Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos, MEPR - Movimento Estudantil Popular Revolucionário.

As organizações presentes saudaram o CDRA pela conclusão do Corte Popular e declararam seu apoio à luta dos camponeses. Cada uma, a seu modo, fez sua homenagem ao companheiro Cleomar, culminando na colocação deste marco histórico da luta dos camponeses pobres do Norte de Minas e Sul da Bahia, um compromisso coletivo de eternizar o seu legado e seu exemplo, assim como de todos os heróis do povo brasileiro, como o companheiro Renato Nathan (professor da Escola Popular e apoiador da luta pela terra em Rondônia, assassinado pelo latifúndio em 2012), a companheira Sandra Lima (fundadora do MFP, falecida em julho de 2016), e tantos outros que tombaram na luta pela independência, liberdade, terra, justiça e verdadeira democracia!

Ao longo de todo ato de colocação do marco e no encerramento, ouviram-se em coro várias palavras de ordem como: “é terra, é terra, pra quem nela trabalha, e viva agora e já a Revolução Agrária!” “É morte, é morte, ao latifundiário, e viva o poder camponês e operário” “Viva a aliança operário-camponesa” “Companheiro Cleomar: Presente na Luta” “Companheiro Renato: Presente na Luta”, “Viva a Revolução Agrária!” e várias outras consignas que demonstraram a disposição e vivacidade dos companheiros e companheiras.

 

A festa

A celebração iniciou-se já na alvorada do sábado, sem foguetes, segundo a orientação da autodefesa da área, que há um ano sustenta com muita determinação o serviço de guarda por 24 horas, envolvendo os moradores, homens, mulheres e jovens. Uma pequena carreata de 4 km da Vila da Entrada até a Vila Unidos, seguida de um zum zum zum, anunciava a chegada para a colocação do marco, que foi precedida de um café da manhã caprichado, preparado pelos companheiros moradores. A Vila estava enfeitada para um dia de festa, o que se percebia até mesmo pela aparência dos companheiros que se vestiram formalmente, como se faz nos dias especiais. Com hora marcada explodiram os foguetes e os visitantes se misturaram aos moradores numa passeata ao som das canções “bela ciao” e “o risco”, que conduziram os presentes ao local do café da manhã, com a suco de umbu e outras iguarias locais.  

Antes e durante a festa, era visível a euforia da juventude que se preparava nos intervalos entre uma atividade e outra, para a apresentação de uma peça teatral, proposta pelo “Grupo de Teatro Servir ao Povo” (Varzelândia).

No sábado à noite, como não poderia faltar, teve uma bela roda de viola com uma dupla, formada por filhos dos camponeses que surpreenderam a todos com suas belas vozes e sua destreza na viola e violão. Para abrilhantar a festa e garantir melhores condições de segurança, a autodefesa colocou diversas tochas, no percurso da cancela até a roda de música, iluminada por uma fogueira central.

Além disso, mesmo sob um sol escaldante, foram realizadas atividades recreativas, como futebol, peteca, brincadeira com as crianças, tudo num clima de muita união e companheirismo.

 

Apoiar-se nas próprias pernas

A realização da festa do Corte envolveu toda a área. Todas as famílias deram contribuição para a compra da vaca e em alimentos. Além disso, uma comissão percorreu as cidades de Montes Claros, Pedras de Maria da Cruz e Januária, fazendo convites e solicitando apoio material. Vários comerciantes e apoiadores deram sua contribuição, também o prefeito, conhecido por negar água para a comunidade nos anos anteriores à morte do Cleomar, desta vez, deu sua contribuição, os sindicatos de trabalhadores e a colônia de pescadores também se comprometeram. No entanto corre um boato de que o latifúndio enviou comitiva às cidades para intimidar os apoiadores dos camponeses e que por isso alguns representantes que haviam confirmado presença, não compareceram.

É importante ressaltar que, nas vésperas e durante os dois dias de festa, funcionou com ótima organização a Cozinha Coletiva. As refeições foram servidas sem nenhum atraso e com ótima qualidade. Desde o café da manhã, os almoços com churrasco, arroz com pequi e os jantares com caldo de mandioca e costela de boi, tudo, tudo muito bem caprichado, da água aos locais para receber os visitantes, cada detalhe foi pensado pelos companheiros e companheiras. Muitos trabalharam duro para que tudo desse certo, toda a área se renovou. A equipe de propaganda trabalhou pesado, a juventude se mobilizou e a área estava a própria expressão da grandeza do momento, com flores, cartazes e faixas por todo lado que se olhava. Também a equipe de autodefesa trabalhou bem. O clima era de festa, mas também de tensão. Na quinta a policia civil invadiu a área pela mata, nos dias seguintes DRONES sobrevoaram as casas. Os companheiros responsáveis mantiveram a vigilância por todo o momento. Tentaram acertar os DRONES mas não tiveram sucesso.

 

Movimento Feminino Popular

Ainda no primeiro dia, cumprindo a programação, depois do almoço, foi realizada uma reunião de mulheres, promovida pelo MFP –Movimento Feminino Popular. Iniciaram com o canto “Lutadoras da Revolução”, hino do MFP. As companheiras que dirigiram a reunião fizeram questão de marcar uma forte saudação em memória da companheira Sandra Lima e já começaram convocando as atividades do 8 de março em homenagem à esta brava lutadora do povo que até o seu ultimo suspiro levantou a bandeira da Revolução Democrática, ininterrupta ao Socialismo em nosso país e a necessidade da participação ativa das mulheres do povo nesta luta.

Na reunião, todas se pronunciaram. Estavam presentes mais de 30 companheiras, entre camponesas, estudantes, professoras, pesquisadoras, sindicalistas e outras trabalhadoras da cidade. Com falas simples cada uma se apresentava e falava o que pensava da luta, da situação atual em nosso país e como se sentia naquele momento. Vários relatos demonstraram a importância da participação das mulheres em todas as atividades, em especial na retomada daquelas terras e na realização e sustentação do Corte Popular.

Durante a reunião, os companheiros cuidaram das crianças, realizando atividades com elas para que as mães pudessem participar. Além disso, outra equipe de companheiros se revezaram na cozinha, para que nenhuma companheira ficasse de fora.

 

Servir ao Povo

O grupo de teatro Servir ao Povo preparou junto à juventude local a apresentação da peça “A Aldeia Tachai”, uma adaptação de parte dos “Três textos mais lidos do Presidente Mao Tsetung”. A peça como no texto, conta a historia de uma aldeia que em 1963 (durante a construção socialista na China Popular) foi arrasada por chuvas e que se reconstruiu, vencendo várias dificuldades e sabotagens dos antigos latifundiários, apoiando-se nas próprias forças, sob a consigna do Presidente Mao de que o “fator decisivo é o homem”.

Alguns membros do grupo de teatro original já haviam se dispersado, indo morar em cidades diferentes e as companheiras tinham agora à sua frente o desafio de envolver novos companheiros que em sua maioria sequer já assistiram uma peça de teatro e que conheceram a peça poucos dias antes de apresentá-la. Além disso, os “atores” cresceram, e os figurinos estavam muito pequenos e apertados. Tudo isso superado, o desafio seria apresentar.

Durante a apresentação, o barracão da Assembleia Popular ficou pequeno, e ao redor se amontoaram as pessoas para ver a apresentação teatral. O silencio na “plateia” e a atenção eram incomuns e todos os personagens puderam ser ouvidos, mesmo os iniciantes. A apresentação causou grande impacto nos presentes, em especial nos camponeses, pelo orgulho de ver o esforço de seus companheiros e filhos defendendo sua luta, pela identidade com a aldeia Tachai, em função da seca severa que assola o Norte de Minas e grande parte da Bahia e pela alegria de ver representada a vitória dos pequenos e explorados sobre os inimigos do povo.

 

A entrega dos Certificados de Posse

Este era o momento mais esperado da festa. Momento em que cada família receberia das mãos do Comitê de Defesa da Revolução Agrária, o seu CERTIFICADO DE POSSE, constando o seu nome (do casal), o numero do seu lote, o tamanho, as coordenadas geográficas e o mapa, como reconhecimento de sua luta pela conquista da terra e de seus esforços para defendê-la sob a bandeira da Revolução Agrária.

Esta Assembleia especial foi iniciada com o canto solene de A Internacional. Uma mestra de cerimônia conduzia a atividade. Foram chamados a frente um representante do CDRA - Comitê de Defesa da Revolução Agrária, da Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas e Sul da Bahia, do Comitê de Solidariedade à Luta dos Povos, da Unidade Vermelha - Liga da Juventude Revolucionária. O companheiro do CDRA em sua intervenção destacou que “Este momento é a culminação de uma primeira e decisiva etapa na luta de nossas famílias pelo nosso sagrado direito à terra. Mas que a luta não termina aqui. O desafio agora é desenvolver a produção em cada lote e fazer avançar progressivamente a produção coletiva, única forma de enfrentar a estiagem prolongada e as dificuldades impostas pelos nosso inimigos de classe; fortalecer a Assembleia Popular e o CDRA; manter a vigilância contra os ataques do latifúndio e do velho Estado e, principalmente ter claro que a vitória definitiva de cada camponês só poderá ser alcançada com o triunfo da Revolução Agrária por todo o país, como parte da Revolução de Nova Democracia ininterrupta ao Socialismo e a serviço da Revolução Mundial, com a destruição das três montanhas que pesam sobre os ombros de nosso povo: o latifúndio, a grande burguesia e o imperialismo”.

A cada pronunciamento, aumentava o fervor e a fé na luta. A declaração da juventude combatente que atua nas cidades fez encher de certeza e esperança de que nossa luta está no caminho certo, que muitos jovens e intelectuais honestos se unirão aos camponeses pobres por entenderem que esta é a contradição principal em nosso país e que a Revolução Agrária abrirá o caminho para a construção de uma nova e verdadeira democracia no Brasil.

A ansiedade crescia em torno da entrega dos certificados, quando todos os membros do CDRA foram chamados a frente para a tão esperada hora. Antes, uma carta da Comissão Nacional das Ligas foi lida, na qual saudava o CDRA e todas as famílias pela vitória que representava este momento e chamava a atenção para a gravidade da situação política, os ataques sofridos pelo movimento camponês, quilombola e indígena em todo o país, especialmente em Rondônia, pela ação conjunta dos bandos armados dos latifundiários e o velho Estado e seus agentes repressivos, contando com uma campanha difamatória contra a LCP pela atuação venal da imprensa rondoniense, serviçal do imperialismo e dos latifundiários.

Por fim, cada família foi chamada em alto e bom som a frente e recebia orgulhosamente o seu certificado. A cada certificado entregue, aplausos calorosos de todos os presentes! Muitos se emocionavam. O clima era de união e muito orgulho. O companheiro Cleomar está ainda mais vivo, cada vez mais, presente em nossa luta!

Viva o Corte Popular!

Viva a Assembleia Popular!

Viva o Comitê de Defesa da Revolução Agrária!

Viva a Área Revolucionária Cleomar Rodrigues!

Cleomar Vive! Morte ao latifúndio!

Viva a Revolução Democrática-agrária e anti-imperialista!

 

Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas e Sul da Bahia

   

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