Nota da redação:
Reproduzimos a seguir a nota publicada em 20 de junho de 2022 pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), com motivo do assassinato da liderança camponesa Wesley Flávio da Silva.
A redação de Resistencia Camponesa saúda o inestimável trabalho de denúncia da CPT, que durante anos tem servido como uma voz de defesa dos direitos dos camponeses pobres. Entretanto, não nutrimos qualquer ilusão de que qualquer “Força Tarefa” ou “investigação imparcial” servirá para qualquer coisa a não ser para nutrir ilusões, quando os que “investigam” não passam de mandantes e cúmplices — no melhor dos casos, funcionários impotentes —, diante de verdadeiras quadrilhas que infestam de cima abaixo este velho e pútrido Estado, balcão de negócios de delinquentes vulgares, uniformados ou não.
Este assassinato é, na realidade, mais uma comprovação do que temos dito durante anos, de que a única política agrária do velho Estado, sejam quais forem seus gerentes de turno, é o assassinato sistemático e roubo de terras dos camponeses pobres. Esperar algo diferente, é esperar sentados a fome e a morte certa. Este assassinato martela uma vez mais nas mentes dos camponeses pobres essa verdade.
Mais cedo do que pensam, os inimigos do povo serão varridos pelos ventos da história. São os camponeses pobres mesmos aqueles que farão sua justiça, e de nada servirão bravatas e mugidos. A morte de Wesley, mais cedo do que pensam aqueles que hoje a promovem, terá sua resposta implacável, e todo brasileiro terá que escolher do lado de quem ficar.
Leia a seguir a nota completa publicada pela CPT.

Liderança camponesa é assassinada em Rondônia
Wesley Flávio da Silva, presidente da associação rural Nova Esperança, foi assassinado na última sexta-feira, 17 de junho, por volta das 9h da manhã, dentro do Projeto de Assentamento Nova Floresta, no município de Campo Novo de Rondônia, localizado a 322 km de Porto Velho (RO).
Segundo informações divulgadas, Wesley morreu após ser baleado pelas costas por uma pessoa que chegou numa moto vermelha na sede da associação Nova Esperança. Testemunhas disseram que o atirador chegou a apertar a mão da vítima e, depois de conversarem por um momento, efetuou o disparo. Wesley faleceu no local, antes da chegada do socorro médico.
Wesley da Silva tinha 37 anos, era casado, pai de um casal de filhos menores de idade, e já foi secretário de obras do município vizinho de Governador Teixeira, onde foi realizado o velório. A liderança rural e sua família haviam se mudado de Governador Teixeira para Campo Novos após receber uma série de ameaças de fazendeiros locais.
Até o momento nenhum suspeito foi apontado como autor ou mandante do crime e considera-se que a motivação do assassinato esteja relacionada a um conflito agrário.
Área de conflito agrário com graves situações de violência
A Associação Nova Esperança reivindica uma terra pública ocupada por mais de 280 famílias desde 2018. Essa é um antigo seringal, desapropriado em 1989, no qual foi criado nos anos 90 o projeto de Assentamento Nova Floresta, em que a maior parte da área não teve a efetivação do assentamento em razão da grilagem por parte da Fazenda Marechal Rondon, do ex-senador, deputado federal, prefeito e por último, vereador de Ariquemes, Ernandes Amorim.
Amorim é um conhecido e controverso político local, vinculado ao garimpo, que já sofreu prisão e diversos processos e condenações por agressões e por corrupção, sendo acusado também de desmatamento ilegal.
O local de conflito, situado entre os municípios de Governador Teixeira e Campo Novo, já foi palco de tensão após acusações de desaparecimento de dois caseiros e do ataque de um grupo de pistoleiros aos posseiros da área que, segundo informações locais, foi realizado por uma milícia de doze homens, comandada por um ex-policial de Buritis conhecido como “Zeca Urubu”, em 18 de julho de 2020.
Na época, diversos vídeos e fotografias divulgados nas mídias de Rondônia denunciaram diversas pessoas que foram espancadas e vários carros danificados a balas. Deixaram, ainda, uma lista com ameaças de morte a seis pessoas do acampamento.
Reintegração de posse
Na manhã de uma quinta-feira, 04 de fevereiro de 2021, uma megaoperação policial executou uma reintegração de posse no local com homens da Polícia Federal, Polícia Civil, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e um Helicóptero do Núcleo de Operações Aéreas de Rondônia (NOA).
Mais de 180 famílias tiveram as casas e roças destruídas durante os três dias que demorou o cumprimento da reintegração de posse, acarretando, dessa maneira, uma situação de extrema vulnerabilidade às famílias em plena pandemia da COVID-19.
Na ocasião, conseguiram evitar que todas fossem despejadas, porém, a ação de reintegração, nestas circunstâncias, colocou em perigo de contágio centenas de pessoas em situação de risco e de extrema vulnerabilidade. Segundo os posseiros, algum tempo depois da efetivação do despejo, mais de trinta famílias contraíram o vírus da COVID-19, seguramente por terem sido impedidos de manter o isolamento e precisarem se refugiar em casas de familiares e em acampamentos.
Suspensão da ordem judicial e reocupação da área
Uma nova ameaça de reintegração de posse foi suspensa com intervenção do Ministério Público Federal de Rondônia, em parceria com a Defensoria Pública do Estado. Após uma decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (Agravo N. 1002678-68.2021.4.01.0000) o despejo que estava programado para ocorrer no dia 17 de março de 2021 não se concretizou.
Os camponeses, atendidos pela Ouvidoria do DPE, obtiveram apoio do MPF, que no mês de janeiro de 2021 agravou uma decisão da Justiça Federal, defendendo a efetiva competência federal e o domínio do Incra na área. Após decisão, os posseiros fizeram a reocupação da área e expulsaram um grupo de pistoleiros armados que estava na sede da fazenda do Amorim, os quais se refugiaram na Terra Indígena (TI) vizinha, a Uru Eu Au Au.
Assim, este conflito em momentos atinge também a aldeia indígena Alto Jamar, da TI Uru Eu Wau Wau, causando grande constrangimento e colocando famílias em risco, já que os indígenas precisam atravessar a área em disputa para entrar e sair de sua aldeia. Há décadas a fazenda tem sido acusada de ser utilizada para garimpo ilegal, com denúncias atuais de invasões e roubo de madeira da Terra Indígena.
Em 2022, já são 22 assassinatos no campo brasileiro
Recentemente, diversos vídeos e reportagens divulgados pela Associação Nova Esperança na mídia de Rondônia mostram as reivindicações e o trabalho na terra das famílias de posseiros e as suas dificuldades no conflito com o ex-senador Amorim, que também se manifestou.
Continua a tensão diante das possibilidades de uma nova reintegração de posse, que pode estar acontecendo após a Pr