No dia 23 de janeiro os camponeses Enilson Ribeiro dos Santos e Valdiro Chagas de Moura foram barbaramente assassinados em Jaru. Os assassinos perseguiram os companheiros por muito tempo, atiraram e terminaram de matá-los, primeiro um e depois o outro, esmagando suas cabeças a golpes de pedra. Fizeram tudo isso em plena luz do dia, num setor movimentado da cidade, diante de várias testemunhas sem se preocuparem com nada. Agiram, claro está, com a garantia de que a polícia não interferiria.
Enilson era um dos coordenadores da LCP – Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia e Amazônia Ocidental, ele e Valdiro lideravam o Acampamento Paulo Justino, no município de Alto Paraíso, onde o latifundiário Antônio Carlos Faitaroni, através da recém-criada “Associação de Pecuaristas de Ariquemes”, na verdade fachada duma organização paramilitar dos latifundiários do Vale do Jamari, ameaçou lideranças, contratou pistoleiros que roubaram, agrediram, torturaram e despejaram os acampados, camponeses vizinhos e inclusive um trabalhador de uma fazenda próxima, além de assassinatos e desaparecimentos forçados de ativistas da luta pela terra.
Foi mais um caso do novo modus operandi definido por esta organização dos latifundiários para eliminar camponeses e suas lideranças na luta pela terra, através de “grupos de extermínios”, compostos de pistoleiros e policiais, protegidos e acobertados pela cúpula da área de segurança do Estado, para esconder sua autoria, fazendo parecer crime comum, passional ou de disputas entre camponeses. Foi assim com Paulo Justino, assassinado a pauladas em Rio Pardo (distrito de Porto Velho), com Dona Terezinha, morta a golpe de machado na área Élcio Machado (no município de Monte Negro) e com Nicinha, que no dia 7 de janeiro desapareceu do acampamento onde morava em Porto Velho – mesmo sendo conhecida ativista da luta contra a construção das usinas de Santo Antônio e Jirau, a polícia concluiu em tempo recorde que ela foi assassinada por um acampado por motivo fútil. Todos estes companheiros e a companheira eram lideranças da luta pela terra.
Também recentemente, em Pedras de Maria da Cruz, no Norte de Minas, o companheiro José Osmar Rodrigues Almeida, teve o crânio fraturado por golpes de pau quando chegava em casa na noite de 19 de janeiro passado. Isso mostra que os planos repressivos do latifúndio não se restringem à região norte. A crueldade dos latifundiários não tem limites. José Osmar é irmão de Cleomar Rodrigues, dirigente da LCP do Norte de Minas e Sul da Bahia, assassinado numa tocaia por pistoleiros do latifúndio, em outubro de 2014. Imagino o sofrimento da família deles, conheço na pele esta dor, pois sou irmão de Renato Nathan, líder camponês assassinado por policiais militares e seus capangas em Jacinópolis (em Buritis-RO), no dia 9 de abril de 2012.
Fato notório e alarmante em tudo isto é o de como vem atuando o novo comandante geral da Polícia Militar de Rondônia, o coronel Ênedy Dias de Araújo, que repentinamente e há apenas 6 meses da nomeação de seu antecessor, tomou posse na sede do comando geral, sem as presenças de praxe nestes atos. A própria ausência do governador denotou algum tipo de intervenção ou ingerência externa à administração estadual. Ênedy assumiu o cargo correu para Buritis e Monte Negro, onde os camponeses estão há anos enfrentando os mais brutais ataques criminosos dos latifundiários grileiros de terras da União, para dar entrevistas num teatro montado por encomenda. Sempre destilando seu fel contra os camponeses pobres sem terra disse que “Quem invade, destrói, tortura pessoas, mata e queima propriedades só pode ser chamado de terroristas. Essas quadrilhas tem que ser punidas dentro do rigor da lei, se possível, na Lei Nacional de Segurança, que prevê esse tipo de ação criminosa. Tenho a determinação do governador Confúcio e do secretário de Segurança para atuar diretamente e combater os conflitos agrários na região. Eu comandei o 7º Batalhão e houve um tempo de calmaria durante a minha passagem por aqui. Daremos uma atenção especial para o Vale do Jamari nesta questão envolvendo a violência no campo.”
Esta atitude e esta declaração sugere claramente que suas promoções e recente nomeação ao comando geral são premiações pelos seus serviços prestados aos latifundiários de perseguição aos camponeses pobres, à LCP e cobertura dada a ação criminosa de pistoleiros e policiais contra famílias de camponeses pobres em sua sofrida luta por um pedaço de terra.

Buritis e Monte Negro fazem parte do Vale do Jamari, região esta que como nas demais do estado de Rondônia, os latifundiários, com todo apoio de sucessivos governadores, tem praticado a grilagem de terras públicas e a exploração de trabalho escravo. Para isto toda sorte de crimes contra camponeses, cometidos por pistoleiros e policiais: despejos brutais de famílias, roubos, destruições de casas, de roças e criações, agressões a idosos, mulheres e crianças; ameaças, sequestros e tortura, prisões, desaparecimentos forçados e assassinatos. Tudo isto, mais o silêncio cúmplice do Ouvidor Agrário Nacional Gercino José, o acobertamento velado pelo governador Confúcio Moura e vista grossa do elemento Ênedy, que na mesma ocasião citada foi além e ainda parabenizou os policiais: “Tenho muito orgulho de vir aqui, conversar, cumprimentar e olhar nos olhos de cada policial militar daqui.”
Mas ninguém esperava nada diferente deste senhor, principal suspeito de comandar um grupo de capangas, milícias, agentes penitenciários e policiais fortemente armados que faziam segurança privada para latifundiários de Buritis e região. Isto, segundo um relatório da própria polícia militar, apresentado na 733ª reunião da Comissão de Combate a Violência no Campo, em Porto Velho, em 2014.
Não é de hoje que o atual coronel persegue e reprime camponeses pobres e a LCP. Em 2003, a LCP organizou a ocupação de uma fazenda na BR 364, em Jaru, do latifundiário Antônio Martins dos Santos, conhecido como Galo Velho. Na época, Ênedy comandava o grupamento da PM de Jaru. Os pistoleiros a serviço do latifundiário cometeram toda sorte de crimes contra os acampados e camponeses vizinhos, sem serem sequer abordados pela PM. Mas quando um destes criminosos morreu, policiais militares invadiram e reviraram a sede da LCP várias vezes, apreenderam bandeiras, documentos, câmera filmadora, computador, dinheiro e prenderam os camponeses Caco, Joel e Ruço. Após uma grande campanha de denúncia e apoio aos companheiros, todos foram absolvidos por total falta de provas, apesar de terem passado meses detidos e anos no caso de Ruço. Num dos julgamentos, desmoralizado, Ênedy acabou confessando que perseguiu a LCP e não investigou nenhuma outra possibilidade, entre tantas que havia no caso.
Em 2004, camponeses denunciaram que Ênedy recebera um caminhão carregado de bois de um latifundiário da região de Jaru para reprimir acampados que invadiram suas terras. Por causa desta denúncia feita por estes camponeses, ele perseguiu o Jornal Resistência Camponesa que noticiou as denúncias, as bancas que o venderam e até a gráfica que o imprimiu, chegando ao cúmulo de querer exercer censura, exigindo ver os conteúdos dos materiais informativos de camponeses e da LCP antes destes serem impressos!
Quando Ênedy assumiu o comando do 7º Batalhão da PM, em Ariquemes-RO, aumentou assustadoramente o número de pobres assassinados na cidade por “grupos de extermínio” formado por policiais, como as famosas “motos pretas”. Assim como os despejos violentos e a repressão aos camponeses em luta pela terra. Em julho de 2012, sob seu comando, a PM despejou e prendeu 22 camponeses acampados na fazenda Stivanin, na rodovia 257, neste município. Cometeram várias arbitrariedades e maus tratos contra trabalhadores, mas este senhor teve o descaramento de dizer, em mensagem eletrônica para o ouvidor Gercino José: “informo que foram asseguradas todas as garantias constitucionais aos presos, sendo seguidos todos os princípios de direitos humanos, com tratamento humanizado e respeitoso com todos”. Disse ainda que “chegou informações” de que o objetivo da LCP era vender terra e extrair madeira. Engraçado como o coronel Ênedy nunca deu declarações sobre as informações referentes as Glebas Rio Alto e São Sebastião, que abrange 7 municípios do Vale do Jamari, cortadas pelo Incra na década de 1990 em 4.000 lotes pequenos, destinados a “reforma agrária”, mas que foram grilados por latifundiários, sem nunca terem sido entregues a nenhum das centenas de milhares de camponês pobres sem-terra deste estado.
Foi durante o comando de Ênedy na 1ª Cia. em Jaru e depois no 7º Batalhão (Ariquemes) que vários líderes da LCP e de outros movimentos camponeses foram assassinados, como o casal Tonha e Serafim, Oziel, Zé Bentão, Élcio, Gilson, Renato Nathan e muitos outros.
Nas várias entrevistas que já concedeu só em janeiro, o coronel Ênedy disse que retomaria as patrulhas rurais para proteger o sitiante. Agora, sob seu comando, viaturas da PM e GOE fizeram rondas arbitrárias nas áreas Canaã, Raio do Sol e Renato Nathan 2: ameaçaram prender camponeses que estavam num mercadinho local ou andando na estrada, fotografaram rostos e veículos de vários moradores e apreenderam suas motos.
Mas não só camponeses são vítimas dos abusos de poder do coronel Ênedy. Ele comandou o despejo violento de famílias sem-casa (acampamento “Dilma Rousseff), em Porto Velho, quando esteve lotado na capital. Também em Porto Velho e já sob seu comando geral, a PM e GOE reprimiram brutalmente motoristas e cobradores demitidos quando uma nova empresa foi contratada, mesmo a prefeitura tendo garantido que ninguém seria mandado embora. Policiais dispararam bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e espancaram trabalhadores que esperavam pacificamente o fim de uma reunião de negociação entre o sindicato e a prefeitura.
Também é no mínimo curioso a intensa e frenética publicidade que rodeia Ênedy, numa clara tentativa de fabr